LO TEDHAL Centro de Terapia da dor e Cuidados Paliativos

Esta Senhora, que aqui chamaremos de Aparecida, de 52 anos de idade, chegou ao nosso serviço com dor intensa e desesperadora.

Era portadora de câncer de garganta há 6 meses e foi encaminhada para receber cuidados paliativos. Foi submetida à quimioterapia, pois não havia indicação cirúrgica pelo avanço do tumor que foi diagnosticado tardiamente.

Alimentava-se através de uma sonda encontrando-se extremamente emagrecida.

Conseguia se comunicar e falar com dificuldade em virtude da dor que sentia e da grande quantidade de secreção na garganta que à noite quase a sufocava.

Veio sozinha à consulta e apesar do sofrimento, aparentava ser uma mulher determinada e corajosa. Tinha fumado e bebido excessivamente durante trinta anos.

Acompanhamos esta paciente durante um ano e dois meses. Conseguimos aliviar por completo a dor na garganta por todo este período através de medicações e diminuir os seus sintomas desconfortantes como a secreções sufocantes e a fraqueza, podendo viver esse período com qualidade de vida e mais dignidade.

Contou-nos que durante toda a sua vida foi cozinheira e gostava muito do seu trabalho. Após a ida de seus patrões para a Alemanha adoeceu logo em seguida e sua vida se transformou em sofrimento. Só agora, sentindo-se melhor, voltou a cozinhar com prazer, acordando às 4 horas da manhã para fazer coxinhas e trufas para vender. Morava em uma favela e sofria também por isso.

Aprendeu com a terapeuta ocupacional da equipe a fazer cachecóis e meias de lã e cada vez que se consultava conosco vendia todos os bombons, fazendo da consulta um momento de alegria para todos.

Esta senhora tinha um filho, hoje já adulto, do primeiro casamento, vivendo atualmente com outro companheiro.

Com o tempo Aparecida se tornou para nós mais que uma paciente. Sua garra e coragem moviam a todos nós da equipe e ela se tornou uma amiga e mestra quando dizia:

“Vivo cada dia como se fosse o único! Ao acordar vou agradecendo a Deus pelos meus olhos, meu nariz e por cada parte do meu corpo até chegar aos pés!”

Ela sabia da gravidade do seu estado, mas jamais se deixou abater. Vinha sempre às consultas sorrindo, toda cheirosa e arrumada.

Um dia lhe perguntei se ela tinha algum sonho que gostaria de realizar.

Aparecida respondeu-me:

- “Meu sonho, doutora, é ter uma cozinha de tijolos!”.

Diante desta frase não podíamos mais esperar. Eu e minha equipe fomos visitá-la e descobrimos que ela tinha uma cozinha bem arrumada, mas de papelão.

Uma grande cozinheira que lutou toda uma vida, amando o que fazia, pondo ali sua paixão, sentido de sua vida, tinha todo o direito de se imaginar cozinhando em uma cozinha de tijolos. Algo tão simples para muitos e um presente real para outros.

Um voluntário extraordinário que nos acompanhava, assumiu o compromisso conosco de realizar o sonho de Aparecida e em 3 semanas com um mutirão de pedreiros (não havia tempo a perder) não só a cozinha, mas toda a casa, completa, lhe foi entregue de presente. Feliz como nunca, um dia ela nos convidou para visitá-la e conhecer a tão querida cozinha, que resgatou o sentido de sua vida.

Aparecida naquele dia, ao nos receber, com 35 quilos, parecia um gigante de 120 quilos. Sorria, seus olhos readquiriram luz e ela tinha uma postura digna de rainha. A cozinha estava lá, linda, novinha, cheirando bolo recém tirado do forno, feito por ela para nos servir.

Seu sonho fora realizado.

Um mês depois ela partiu.

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